sad ends nada cinderelescos

Frustração múltipla. Tipo como o que acontece no orgasmo, saca? Mas tinha prometido aquela manhã, que não ia falar com ninguém dos meus problemas. Eles são meus e dizem que pega mal dividir coisas ruins com os outros. Tinha sujado a fronha branca cheia de ramos de rosa, com aquele velho e bom rímel preto. Ele, o companheiro de muitas horas ruins e boas. O liquidozinho miserável que denunciava as minhas lágrimas, que deveriam - e seriam - discretas, se não fosse todo aquele pretume impregnado. A gata tinha feito cocô, e limpado na porra do lençol rosa. Sim. Nem os botes incansáveis e graças daquela bolinha de pelo eram capazes de extrair dos meus lábios um sorriso sincero. Ultimamente, estava habituada a contorcer os músculos faciais formando o que deveria aparentar um riso. Vez em quando, podia perceber pela expressão dos outros, que havia falhado e deixardo transparecer uma careta angustiada. Ninguém entende, repito. Não adianta explicar. Falar, alivia dores emocionais, mas não as cura. De que servem lamúrias, lamentações e conselhos de mesa de butequim, se no final, no final mesmo, é só você e você, hora bolas? Eu, o rímel e o travesseiro - pensei-  e mais nada.





'O tamanho da frustração, depende do tamanho da ambição'

inverno no inferno.


O céu ao invés de preto, estava cinza. Não se viam estrelas: era uma das raras noites de chuva. O couro gélido da sandália jamais seria o mesmo depois de toda aquela lama. O cabelo molhado colado ao rosto e uma gota preta do rímel escorria fazendo piruetas, formando desenhos psicodélicos na face pálida. Tinha esquecido como é ser mulherzinha. O salto alto, o guarda-chuva e aquela tempestade tinham um quê romântico. Romântico não do tipo acompanhada, mas do tipo sozinha, elegante e bem-resolvida, sabe?
Subo as escadas como se alguém estivesse olhando.  Altiva, passo firme e um leve esforço para mover ombros e quadris com uma certa fineza. Ao cruzar a porta, surpresa: uma goteira e a lâmpada da sala queimada. Tiro os sapatos encharcados, deixando de lado a feminilidade forçada dos últimos 10 minutos. Tento apertar a lâmpada, pra ver se pega no tranco, sabe? Fracasso. Pras gotas que teimavam em cair do teto, bacia.
Flashes e mais flashes. Sem câmeras, só relâmpagos claros e silenciosos. Não podia deixar de ver a beleza em tudo aquilo. Como eram belas, as noites sombrias, chuvosas e frias. Faltou algo quente, para beber numa uma caneca bem grande enquanto assistia a um bom filme, vestindo as minhas pantufas de ratinhos.
Ao contrário da maioria, sol, verão e céu azul não eram os campeões de boas recordações na minha vidinha. As tempestades sim, embalaram muitos dos meus melhores momentos.  Provas de junho na escola, por exemplo. Era a melhor época do ano.  A molecada reunida na praça, depois da escola,  em plena garoa. Casacos coloridos enfeitavam aquelas fardas pálidas e iguais. E ficávamos pensando em forró, rindo e fazendo novas amizades. Sempre aparecia um hippie, um skatista ou um bêbado pra puxar conversa e incrementar os papos pré-adolescentes. Adorávamos isso.  Depois, devorávamos churros quentinhos cheios de leite condensado, e a manhã sempre terminava com um toró daqueles.
01:30. É madrugada e não quero dormir. Não é falta de sono, certeza. Nem falta do que fazer amanhã, quem dera. É medo. O frio fecha os poros e sinto estar mais íntima de mim mesma. O calor e a aridez, não sei o porquê, ainda geram um certo estranhamento.


‘E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
É doce herança itabirana.’
                                                                                                                                                                     

lixosofia

        Manhã fria e cinza. Há tempos não precisava de despertador para acordar. O barulho dos carros, o vento gelado deixando a garganta seca e os pêlos da gata entranhados nos lençóis se encarregavam disso. Olhava ao redor, com os olhos ainda entreabertos. A desordem pairava em todos os vãos da casa.,e uma voz insistente  na memória que dizia  - casa bagunçada, vida bagunçada - mamãe de vez em sempre.
         Talvez fosse a dor nas costas, tão prematura. Ou a sensação de viver tão só, tão só, que tivesse uma quase certeza de que ninguém veria a desordem na qual a casa e a vida restavam imersas. Uma coisa é certa: Tinha aprendido a pregar botões, esmaltar as unhas, executar receitas de forno e fogão, cuidar de bichinhos de estimação, mas uma coisa gritava, ou melhor, faltava: aprender a guardar cada coisa em seu lugar.
          E sempre foi assim. No início, o desarranjo era camuflado. Mal saía, a faxineira se encarregava de pôr tudo em ordem. Do outro lado, mãe e pai impondo limites. Como podia eu, adivinhar que sem auxílio estaria em tamanha confusão? Na verdade, não tinha sido por falta de aviso. Mas é que avisos e conselhos sempre soaram como repressão ou desnecessários: aquilo não servia pra mim. Quando a hora chegasse, eu daria um jeito.
          Perdi a linha. Tinha perdido muito tempo, imaginando coisas se teletransportando em direção aos seus lugares. Não concebia a idéia de ter que arrumar, guardar e organizar. E novamente, aquele incômodo: não tinha as rédeas de mim. Uma formiga rebelde que não gosta de carregar mil coisas que pesam uma tonelada a mais do que pode suportar, ovelha desgarrada. Um animal, pude notar. Chegava ao ápice da percepção humana: saber-se bicho.
          E bicho não arruma muito a casa. Não controla muito os instintos. Bicho que é bicho, tem predadores, é predador. Tentam nos convencer o tempo todo da superioridade da espécie. Balela. Os pássaros podem voar, e nem se gabam por isso.
          E toda essa filosofagem de araque para abstrair a faxina que me espera. Chega uma hora, que ou limpa, ou desobstrui as vias, ou não se vive mais. Cheguei nesse estágio. Os olhos sujos, ficam pra depois. Vou tratar de arrumar a vida, começando pelo quarto.

Palavrassoltas


               ‘Todos os prazeres são orais’, lembrei. E fitei novamente aqueles olhos azuis. Desejei por alguns segundos os possuir. Me lembravam céu, água e tranqüilidade. Diferente dos meus, que mais pareciam bolas em tom terroso, que nos momentos de otimismo, me lembravam cor de mel  - passado da validade -. Eu e a minha mania de querer tudo. Nem os olhos da pobre psicóloga, se livraram do instinto predatório. Foco, Lívia, foco. Precisava entrar em meditação por alguns instantes. Deixar de ser e fazer, para ruminar ideia por ideia até a exaustão.
Em 1 segundo, me tornei ‘1/3 do que era. Estava eu, naquela regressão escabrosa, em busca de vestígios da tal fome de tudo, que a doutora diagnosticara. Tinha três anos recém completos. Revistava insistentemente todos os cantos da casa em busca do principal alvo: mãe. A babá, displicente que era, se divertia com o meu caminhar descompassado. No fundo, me fazia de brinquedo naquela tarde quente. Lembro claramente do copinho de alumínio em que rapidamente bebi alguns goles d’água. Lancei-o sobre a pia com toda a força que aqueles bracinhos poderiam aplicar em sinal de protesto. Queria minha mãe a todo o custo.
Choros, velas e caixão. Meu avô, naquela hora havia perdido a batalha contra a morte. Suas piadas – feitas em pleno leito hospitalar – pareciam começar a  concretizar-se. – Vou, mas volto para buscar Livinha, brincava, para o desespero da minha mãe.  Chorosa, tentava persuadi-lo a levar algum dos filhos da irmã – Talvez de tia Sônia, que tinha dois e mais um na barriga -. – não leve a minha filha única, painho!, implorava. Mas ele arriscava um riso, encoberto por tubos e ficava ofegante. Como era brincalhão, o meu avô.
O caso, é que não agüentei aquela ausência. Comecei a correr pelo quintal. Estava decidida: iria chamar atenção. Nem imaginava onde minha mãe estaria, mas achava que a moça pudesse ter uma espécie de radar para as minhas traquinagens. Eis que a sandalinha de couro branco, meio úmida do xixi da manhã que eu insistira em fazer em pé, escorrega, e faz com que eu vá sem escalas encontrar – de testa – o chão desnivelado do quintal. Ardores, choros, colos e promessas de encontrar um coelhinho não sei onde. Lembro disso,  e dos médicos costurando algo que doía levemente.
Agora, crescera alguns centímetros. Centímetros esses, que aliados a um corpo longilíneo renderam na escola o apelido de Olívia palito.  Queria ser modelo. Queria ser cantora. Sonhava em participar do arquivo confidencial do Faustão – é só uma questão de tempo - , previa. Queria ser médica, professora e vendedora de acarajé nas horas vagas (achava o máximo aquela roupa de baiana e aquela alquimia colorida de ingredientes). Queria namorar os mais bonitos do colégio, ouvindo Sandy e Júnior.
Anos a mais e hormônios descompensados. Irrompiam no rosto corpos estranhos. Pústulas, comendões e óleo em excesso. Os dentes, pareciam conspirar contra o sorriso. Os planos iam aos poucos por água a baixo. Piano, ballet, Taekwondo, natação, Inglês, informática, Jazz, aeróbica, ciclismo. Tentei ocupar o meu tempo. Precisava re-descobrir os meus gostos tão dispersos na fase aborrecente. Tinha sede desse encontro. Entre o idealizado e o real. Queria, e piamente acreditava que teria um ‘happy end Cinderelesco’ a qualquer instante.
Aos 15 anos, começava a lamentar o tempo perdido. Cinco anos insistindo no piano, e nada. Nem mesmo um clássico. Tinha gastado tempo, dinheiro, e aprendido nada mais que uma valsinha infantil intitulada ‘ a formiguinha ‘. Uma vida inteira no Inglês, e mal conseguia entender um texto mais complicado – Era pra estar fluente! – minha mãe jogava na cara. Na verdade, mais minha consciência do que ela. A auto-cobrança, de fato tinha sido a minha maior inimiga. Tinha aprendido a reagir de uma maneira anômala à ela. Ao invés de perfeccionismo, desenvolvi uns sintomas autistas, que faziam com que eu levasse as coisas como se nada quisesse.
Quis tudo, todo o tempo. Não virei pianista, bailarina, lutadora ou coisa parecida. Não conquistei os meus amores platônicos. O que veio, foi o inesperado. E as pessoas ainda insistem em me falar de metas. Não sei traçar metas. Pra mim, representaram não mais que perda de tempo. O que não foi perda de tempo,foi o sonho. Abstratos e coloridos, os devaneios não necessitam no seu plano de existência do pressuposto ‘tornar-se realidade’. Talvez sejam a dose de conto de fadas de que preciso. O inalcançável excita. Gosto do querer ter, mas não gosto do ter muito. Me sinto meio vazia e sem vida quando tenho demais. Vai que os sonhos acabam e a minha existência deixa de fazer sentido?   Queria um final legal pra esse texto, na verdade. Eu e minha mania de querer tudo.

We need education

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Já tive professor de tudo quanto é jeito. Não esqueço de nenhum deles(as). Os mestres e mestras tiveram e têm papel fundamental em minha vida: ajudaram, ou atrapalharam bastante.Lembro, que ainda pequena aprendi não sei com quem a ideia de racismo. Não sabia o porquê, mas dizia não gostar de pessoas da pele escura. Eis que um belo dia, minha mãe chega radiante do colégio: - Filha, sua nova professora é tão bela! Eu, ansiosa e maravilhada pedia que me desse detalhes da tão primorosa educadora. A descrição proferida, foi de bela e jovem mulher, de pele clara como a neve e cabelos pretos e delicados. Não via a hora de conhecer aquela que seria a responsável por ensinar a arte de ler e escrever à tantas criancinhas. 

Chegado o dia, lá fui eu ver de perto a idealizada pedagoga. No momento da entrada em sala de aula um sobressalto: - Ui! Acho que errei de sala. Estranhamente, todos os meus colegas estavam sentadinhos. Será que só eu fui posta em uma sala diferente? , pensei com meus botões. O erro estava na cara! Mas mesmo assim, com um sorriso amarelo entrei na sala e pude ter certeza:  A professora, era uma baita negra. Pele muito escura, lábios fartos, sorriso alvo e um fantástico Black Power, essa era a tal educadora.

Juro que a partir desse dia não soube mais o que era racismo. Aliás, acho que nunca de fato sentira. Crianças são mesmo papagaios, que imitam e repetem tudo o que os adultos fazem. Foi entrar na sala e me deparar com aquele sorriso fácil para ser alvo de um amor à segunda vista. Jamais esquecerei aquele perfume, que ela até hoje exala. É o cheirinho de boas recordações, de uma mulher guerreira e responsável, que me ajudou com primor a colocar os primeiros tijolinhos do meu alicerce estudantil.

Quando estávamos agitados, lembro que a pró cantava a música do “palhacinho dengoso” e apagava a luz, para que pudéssemos relaxar. Lembro que uma vez, pedir para não ir ao parquinho e ela deixou que eu permanecesse na sala desenhando na lousa com giz colorido – isso era uma grande prova de confiança para uma menina de 6 anos -.  O mais espantoso, é que ano após ano, tinha vontade de voltar à ser aluna da professora Elizete.

Costumava ver, entre uma aula e outra, alguns alunos antigos fazerem visitinhas e ficava até meio enciumada. Mais tarde, seria eu, uma dessas pupilas saudosas. O tempo passou, e para minha surpresa até hoje – 15 anos depois – A nega mais linda do mundo me reconhece e me cobre de beijos quando me encontra, deixando exalar aquele mesmo perfume, que me traz tantas recordações.  A pró Elizete hoje é aposentada. Reza com as suas amigas, senhoras de um grupo de oração. 

Mas a mensagem que fica, nesse dia dos professores, é que a essência da educação é o amor. Hoje, tantos professores carrascos, que aos trancos e barrancos jogam conteúdo sem sequer saber o meu nome. Aprendo tão menos, fico feliz tão menos. "Não se pode falar de educação sem amor" já dizia Paulo Freire. E é por isso, que cada vez menos somos educados. Somos sim, adestrados, enquadrados ou encaixados nos padrões.

Assim, aqui vai o meu carinhoso parabéns a todos os professores de verdade! Aqueles que de fato possuem a vocação de educar. Fica também o lamento, pela desvalorização de uma das profissões mais belas. Desejo a todos ótimos professores, sempre! Que possamos aprender e nos espelhar sempre nos que têm a faculdade de nos educar. Ah! Quero um dia ser professora. Sempre quis.  


 "Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda." (Paulo Freire)


Inconstante e borboleta


Tenho pena de quem tenta entender a lógica das minhas ações. Não digo isso atoa: é que às vezes - quase sempre - não existe sintonia entre o que penso, digo e faço. E o pior, é que as pessoas costumam fiscalizar todo o tempo. Querem porque querem encontrar uma ligação racional entre as referidas ações. Quantas vezes sou surpreendida por um: " mas você não disse que não gostava daquilo?"  "porque está fazendo isso?" "você não pensava diferente?". Eu sei que essa história de metamorfose ambulante pode parecer papo pra boi dormir,  ou desculpa esfarrapada para carência de personalidade. Ainda assim, insisto em informar à todos que mudo sim, e o tempo todo. Nunca sei quando ou como vai haver a transmutação, só sei que o que era já não é mais e assim vou vivendo. Caleidoscópia, já dizia Clarice: é assim que sou. Indecisões e insconstâncias à parte, quero encontrar o equilíbrio (ou não?). Enquanto isso, mesmo que o novo incomode, por obséquio  jamais cobrem linearidade: sou eterna artesã de mim. 


"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada." [Clarice Lispector]

Da resposta

09:00 da manhã. Ouço som de vassoura. Alguém varria a casa enquanto escutava uma música que dizia "...Olha pra mim, Senhor". Poucos minutos, e começo a ouvir altos soluços. Com certeza, banhado por lágrimas, que daqui de cima não posso ver. Ouço agora, além da música e dos soluços, algumas preces baixas. A moça entra em um lindo estado de oração e entrega a Deus. Posso imagina-la ajoelhada, implorando o olhar clemente de Deus. Eu, com os olhos marejados, por um instante desejo partilhar desse amor. Vontade de descer, bater à porta dessa desconhecida e oferecer o meu abraço. Talvez uma palavra de conforto, um olhar. Dizer que Deus está sim olhando por ela, por nós, pelo mundo. E agora, minha face também se desfaz em lágrimas. Hoje, acordei desejando mais fé. Desejando sentir mais a mão de Deus sobre mim. E do meu pai nosso tão forçado, quase mecânico, eis que uma hora depois vem a resposta para as minhas angústias. A resposta que eu estou cansada de saber, mas nego. Obrigada, Senhor. Glória a Deus!

:)

Fênix

Vontade de escrever uma carta suicida. Mas não de quem por corvadia morre. E sim de quem se mata um pouco pra renascer das cinzas.

Quereres e estares



Quero uma profissão. Mais que isso, quero vida. Quero algo tão intrínseco que não haja vão onde se possa perceber a divisória entre eu e o meu ofício. Desejo algo que flua natural, que não me cause transtornos bipolares de segundo em segundo.

Quero o direito de poder ser eu, e deixar que os outros sejam algo digno, mas não quero “Direito”. Quero elaborar projetos, construir sonhos, engrenagens, casas à beira mar e em topos de montanhas mas não quero ser engenheira. Quero planejar, traçar metas, administrar minha vida e felicidade como ninguém, de modo a estabelecer o equilíbrio entre o meu eu, o próximo e Deus, mas não quero ser administradora.

Quero curar feridas – minhas e dos outros, detectar pelos sintomas os mais diversos males e prescrever soluções para a dor, mas não quero ser médica. Quero arquitetar planos mirabolantes, fachadas e interiores bem bonitos, pra deixar o mundo mais lindo de se ver, mas não quero ser arquiteta. Quero ter o dom do entendimento, o poder de desvendar os mais profundos mistérios da mente humana 
com uma conversa, mas não quero ser psicóloga.

Quero ir mais longe, sair desse mundo, flutuar, vagar pelo desconhecido, mas não quero ser astronauta. Quero dançar. Pulos, piruetas e aplausos mil. Mas não quero ser bailarina. Quero cultivar sorrisos, deixá-los cada vez mais lindos e limpos, mas não quero ser dentista. Quero encantar plateias  representar papéis que muitas vezes sou e não mostro, brincar de sorrir e chorar de mentirinha, mas não quero ser atriz.

Quero voar mais e mais alto, conhecer lugares, falar outras línguas, mas não quero ser turismóloga ou aeromoça. Quero prever o futuro num baralho, e assim, poder fazer melhor as minhas escolhas, mas não quero ser cartomante. Quero o poder nas mãos para mudar a cidade, o país, o mundo. Mas não quero ser da política. Quero estremecer a tudo e todos com o meu mais alto e belo canto, mas não quero ser cantora. Quero ter o dom de brincar com as palavras, unindo-as em perfeita sintonia como pequenos vagões de um trem, mas não quero ser só escritora ou poeta.

E percebo, que na verdade quero ser tudo. E na totalidade, não ser nada que ceife a minha liberdade de SER O QUE QUISER.



'Sempre há alguma coisa que falta. Guarde isso sem dor, embora, em segredo, doa. ' (CFA)

Das vinte e uma primaveras.


Vinte e um. E pensar que há um tempo atrás eram 12. Simples inversão de números, grande inversão de vida. A essência, permanece a mesma. Sem as ingenuidades da quase infância, mas conservando a meninice de sempre. Que tola, essa história de idade! Os anos de vida não deveriam ser medidos pelo tempo. Creio eu, que a alma é bem mais confiável nesse quesito.
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