quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A prostituição da liberdade

Onze anos dando "aquela espiadinha", bordão consagrado por repetição na voz do Bial. Ainda lembro do primeiro reality do gênero exibido no Brasil. Era a Casa dos artistas, que chegou a ter em seu elenco figuras como Supla, Joana Prado (a Feiticeira) e Suzana Alves (mais conhecida como Tiazinha). 

Nunca fui fã incondicional do programa. Assistia sim, vez ou outra, mas sem a religiosidade de quem realmente curte. Compreendo o fato de que ver a vida de pessoas famosas (ou semi-famosas) - que mexiam  com o imaginário de muitos aqui fora - exposta daquela maneira, soava pra lá de atraente a milhares de brasileiros sedentos por entreterimento. Afinal, era ver a sensual Feiticeira, intocável debaixo do seu véu, descer do salto e lavar prato, bater boca, criar confusão e chorar. Era ver a desconstrução dos personagens e a revelação do lado humano de cada um. Ouso dizer, que era como mergulhar mais fundo em alguns "ídolos" - atire a primeira pedra quem discorda do encanto e adoração que as gostosonas mascaradas exerciam sobre o público. No mínimo a mania pela atração justificava-se pela curiosidade de tietes, gente que pela primeira vez poderia conhecer o mistério da intimidade de um famoso antes tido como intocável. 

Tenho que admitir que o estrondoso sucesso do programa Big Brother Brasil (BBB) foi uma surpresa pra mim. Primeiro, porque trata-se de um bando de desconhecidos confinados. Sim, gente como a gente. Tá: o que me interessa ver um monte de gente comum enjaulada vivendo conflitos que todo mundo vive e presencia aqui fora o tempo todo? Acho pouco interessante, mas entendo quem gosta. O fato é que com o passar dos anos as edições foram ficando cada vez mais apelativas. 

Bundas, pernas bombadas e seios de 450 ml cada, são exibidos à vontade. A frase "playboy, me contrata!" está claramente tatuada na testa da maioria das participantes. Os homens, por sua vez, dispensam a presença de máquina de lavar, posto que os seus abdomens, desempenhariam até melhor o árduo serviço.

A verdade é que ligo a TV e me sinto num açougue da era digital. Vejo carnes variadas: coxas, sobrecoxas, peitos rechonchudos de franga, músculos mil, filés bem e mal passados e fígados corroídos pelas bebedeiras em série, que por sina,l na maioria das vezes, acabam em bate boca e escândalos de toda ordem. 

Gente que malha, toma banho de piscina, pega  sol até tostar, come, bebe, ocasiona uma intriguinha aqui, outra ali e vai dormir pinotando em baixo de edredons coloridos.  "Gente como a gente", diz Bial. ou "heróis", como são carinhosamente apelidados. Palhaços num picadeiro monitorado por dezenas de câmeras e telespectadores contentes com pão e circo, vítimas da alienação brutal exercida pela emissora do plim plim.

Inversão de valores, é o que eu penso. Difícil de digerir a intimidade alheia exposta numa vitrine, consentidamente. É privação de liberdade sem o cometimento prévio de crime. Acrescente-se a isso, o fato de que muitos crimes acabam sendo cometidos justamente com/através do confinamento. Posso citar vários: Injúria, difamação, estupro, lesão corporal, periclitação da vida e da saúde, omissão de socorro, dentre outros. E assistimos encantados, hipnotizados, despidos de valores morais. É como se o programa tivesse uma licença poética para exposições excessivas, orgias, crimes, trapaças e mal caratismo. Como assim, Bial?

São tempos de liberdades vendidas por um carro zero ou uma capa da playboy. Temos hora marcada para consentir com a degradação do ser humano todos os dias: entalados em cubículos sem direito à fazer necessidades fisiológicas, comer ou dormir, dançando por mais de 24 horas até a completa exaustão, se equilibrando em plataformas até os músculos doerem tanto que já não podem resistir. Crianças e jovens assistindo, vibrando, idolatrando e se espelhando em uma dúzia de corpos movidos por um jogo de exibição forjadamente grotesca e naturalística, bem aos moldes de "O Cortiço" de Aluísio de Azevêdo. Pessoas meio perdidas, tentando a sorte bancando os bichinhos de zoológico.

Sinto muito, Globo. Desculpa, Bial. Mas não tem trechinho de poema em dia de "paredão" que abrande o que uma parte do público já está vendo que é inútil. Perdão à quem se sentiu ofendido, podem até me colocar na berlinda, mas prefiro TV fazendo arte e entreterimento de qualidade. Sendo assim, Senta lá, Bial. Você e a sua espiada. 



ps: é por essas e outras que a Luíza está no Canadá.

Aviso: o conteúdo desse texto é meramente pessoal. Expus a minha opinião - graças à liberdade de expressão - e a de uma minoria. Não procuro ofender quem gosta da atração,  tampouco desmerecer o gosto alheio. Já assisti BBB e demorei anos pra formar essa opinião.  Respeito quem discordar, afinal, cada cabeça é um mundo ;)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

presente dos céus


Estava no ônibus, de volta à realidade depois de alguns dias de férias. A poltrona reclinável - que nunca reclina o bastante - maltratava as minhas costas. O gingado incessante daquele transporte parecia me provocar: oscilava entre náuseas e dores que percorriam corpo e mente entre um sacolejo e outro. Não era só o incômodo físico. Era o pesar da volta. Depois de anos de idas e vindas, ainda não tinha aprendido a árdua técnica do "dizer bye bye". 

Folheava um livro sem sucesso, posto que paciência e concentração eram artigos raros naquela tarde de nuvens cinzentas. Podia ouvir som de música ruim, espirros e fechadas bruscas de porta, mas um único ruído me interessava: atrás de mim tagarelava sem parar uma criança de aproximados 5 anos. 

O menino narrava incansavelmente as sua grande aventura na capital: tinha tomado o primeiro banho de mar, brincado na areia branquinha e passeado no shopping. Entre um relato e outro, mudava de assunto: observando as formas das nuvens apontava animais, super heróis e até países inteiros recortados no céu.

Apesar da oitiva atenta das histórias e sacadas do pequeno anjo, não consegui identificar o sexo através da voz. Era fina, cheia de sotaque, bonita, infantil e unissex.

Ao anoitecer, pude notar o esmaecer das palavras antes tão serelepes. O sono tinha chegado e pelo visto a mãe tentava induzir uma soneca em sua cria, antes tão agitada. Foi aí que ouvi um sussurro calmo e ao mesmo tempo ansioso: 

- Mamãe, quando vamos voltar à praia?
- Xiii... agora só quando você crescer.
- E quando é que eu vou ser grande?
- Quando completar sete anos.
...
- Mamãe?
- O que é, criatura?! (já meio impaciente)
- Vou crescer como menino ou como menina?
- (a mãe prende o riso, da um suspiro, e responde) Como menino, lógico, né meu filho?

A frase ecoou no ônibus silencioso e  pude ouvir alguns sons de riso, dos que estavam mais próximos. Eu também sorri. E todas as dores ficaram mais leves. E a volta não pareceu mais tão triste. 

O pequeno anjo salvou a minha tarde - quiçá a vida - naquele dia.
 

domingo, 27 de novembro de 2011

João e Maria da modernidade

Tinha cansado de sobras: talvez depois da praia, depois daquela série idiota, depois do cigarro, depois do bar, depois da festa, depois da boate, depois do papo com os amigos. Talvez depois de uma coisa qualquer, como brincar com o cachorro ou trocar idéias com o caseiro. Quem sabe uma sobrinha após o cochilo? Mas depois de tanta espera, era comum um -  não, não.  agora, quero mesmo é me jogar no sofá e não pensar em nada.

A verdade, é que eu havia passado um bom tempo tentando achar brechas, cavar espaços,  inventar técnicas absurdas para prender a sua atenção. Queria inventar um lugar pra mim em sua vida, um papel ainda não preenchido: um tempinho pra chamar de meu. Mas passei longe do êxito. A peça já estava cheia de atores e o diretor estava plenamente satisfeito. – Vai uma vaguinha de arbusto, aí?

Migalhas, eram o que eu tinha. Uma mensagem esporádica na madrugada, um “oi” virtual às vezes. Talvez conversas semi-longas, regadas à demoras, esperas:  típicas de quem não está tão interessado assim.

E saía feito passarinho, beliscando insistentemente os pedacinhos de pão que você largava com displicência no parapeito da janela. Era uma jornada quase suicida, sabia. Mas apesar do claro prenúncio de tragédia, a única coisa que tirava o sono, era a simples possibilidade da completa ausência de migalhas.  O passarinho tinha asas frágeis – e até sabia disso – mas tinha fome inadiável, de qualquer coisa: no caso, mini restos – ou gestos –  de carinho.

Tinha fé, algumas vezes. Pensava que talvez o caminho de migalhas a levasse a uma casa coberta de doces – bem João e Maria, eu sei  –, mas logo lembrava que contos de fadas eram ilusões quase cruéis de se acreditar. Não haveriam gostosuras no final: ou pelo menos nada que valesse o sacrifício daquela  jornada  mendicante.



terça-feira, 8 de novembro de 2011

me faz nuvem



Me faz nuvem, algodão doce, suspiro ou outra coisa muito leve. E preciso dizer que desde alguns meses atrás sinto-me acolhida com aquele abraço de quem não deixa espaços vagos. Impossível ter deixado passar batido o encaixe dos lábios e o "medidor biológico de química" que apitava, em tom de comemoração, o que eu já soube desde o primeiro olhar daquele fim de tarde. '- É ele.', meu corpo afirmava internamente, proliferando a informação por cada célula, tecido, órgão e membro, excluindo somente a parte racional do cérebro. Não tive escolha, juro.

Me faz nuvem de chuva - carregada de raios e trombas d'água ou  de pequenas gotinhas daquelas que só fazem carinho nas folhas -, de areia - livre e viajante por este e outros solos -,  ou de qualquer coisa que se espalhe e percorra longas distâncias facilmente. E é assim que me faço próxima: voo, deslizo em 4, 8 ou mil rodas só pra sentir outra vez aquele coquetel de sensações.

Me faz nuvem, carinho, petit gateou, cócegas, amor, canção ou qualquer coisa que traga bem estar. Incrível como manipula alquimisticamente os meus sentidos, um a um, criando misturas inéditas de seres e estares que eu sequer sabia da existência. É como estar eternamente em dia de estréia de 'quem sou e do que gosto', com direito a frios na barriga, ansiedade e medinhos gostosos. 

É, amor, só você me faz nuvem e consegue moldar primorosamente todos esses risos na inconstância da minha névoa tão louca. Sim, me faz nuvem! e consegue tirar todo o peso dos meus dias usando um par de olhinhos sapecas -, me faz nuvem quando acredita que posso estar muitos metros além do que imagino. Me faz nuvem. E linda. E apaixonada. Ou qualquer coisa que me deixe assim, com esse sorriso bobo de FELICIDADE.


Todo o meu amor,


sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Meu incomum aniversário.


Não, aquele não tinha sido o aniversário dos sonhos. A pouca animação ao pensar na data, uma constante desde os 18 anos, aliada a uma série de acontecimentos horríveis, marcariam o que poderia, para os pessimistas, representar a pior primavera de toda uma vida regada de outros tão festivos bolos coloridos.

Dessa vez, o glacê endureceria na sala vazia. Docinhos e salgados permaneceriam encobertos pelo mistério do papel alumínio - único a reluzir em meio à completa escuridão do cômodo -. Nada de bolas coloridas, risos, música, tilintar de talheres ou alegria: a comemoração tão esperada fora adiada por um plano maligno, friamente articulado entre veias, músculos e aortas pertencentes ao organizador do evento: meu pai.

Se tem uma coisa que nunca faltou ao velho foi saúde. Caminhadas matutinas, com frequência quase religiosa,    seguidas de um café da manhã regado a mel de abelhas, milk shake light de morango, e torradas. Exibia, gabola, disposição que muitos garotos de 20 não poderiam alcançar.

Mas o tempo é justo, e cedo ou tarde acerta as contas: era chegada a hora de pagar pelas bodas de ouro do cigarrinho no bolso da frente da camisa. É... meu quase invencível pai sofreu um infarto - no dia em que celebraríamos, em família, os meus 23 anos.

A cabeça ainda dói em meio ao turbilhão de acontecimentos dos últimos dias. Incessantes ligações de familiares preocupados e a agonia de ver tudo ao redor desmoronar: pessoas e planos, sobretudo. E aí vêm a lembrança clara de ter dito há poucos meses: - pai, seria bom consultar um cardiologista: com idade não se brinca!. Mas ele não ouviu. E me pergunto como seria bom se ouvíssemos mais.

Cercado de acontecimentos tristes, esse meu aniversário trouxe à tona algo importante. Diria até que inaugurou uma nova etapa: aquela em que deixamos de ser filhos.  Filhos, no sentido protetivo da palavra. Nessa fase, a família se homogeniza e passa a ser um todo solidário, uma cooperativa. Uns protegendo os outros, igualmente. É o instinto de sobrevivência.

Descobri que a família é como uma cadeira. E a minha tem três pernas. Uma capengou e as outras tentaram desesperadamente manter o equilíbrio. Mas como era de se esperar, não conseguimos ser firmes em tempo integral: fomos acometidas - eu e minha mãe - por crises de stress e enxaqueca. Tomamos injeções, enquanto meu pai convalescia em outro não tão distante leito hospitalar. O medo de perder assusta e desespera.

Sofrimento à parte, nem só de trevas foram os últimos dias. Recebi muito amor, carinho e atenção dos próximos. Mensagens de solidariedade, ligações e até um primeiro "Te amo" todo especial. Experimentei dor e alegria numa mistura confusa. E até me permiti algumas doses de beijos e abraços quando o mar estava mais calmo.

Meu pai está bem, por hora. Envolto em teimosias, seleciona as recomendações médicas que deseja seguir. As outras, finge que não existem: prefere viver num mundo imaginário onde cigarrinhos acompanhados de uma boa xícara de café feito na hora são aperitivos inofensivos. E não seria feliz de outro jeito: o velho é escravo dos próprios desejos, um hedonista típico. Eu mais que ninguém entendo, visto que - feliz ou infelizmente - herdei a característica. Deleites a parte, a consciência é plena: Alguns prazeres ferem, e muito. Dessa vez, fomos todos as presas. Massacre emocional e físico.




quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A arte de não mais ignorar chamados.


E o chamado teima em ressurgir.  Tento caminhos alternativos o tempo todo: o mais perto,  o mais lógico, o que agrade a um maior número de pessoas, o mais fácil. Mas enquanto os ciclos se completam  o meu destino teima em traçar mil retas nada paralelas que convergem sempre no mesmo ponto.

Já chamei de carma, sina, azar e predestinação. Agora, prefiro acreditar e aceitar os tais “avisos cósmicos” e suspirar aliviada: pronto, destino. Você venceu. Nada de lutas infindáveis tentando brigar com o que está mais que claro: alguma coisa me quer lá. Canto de sereia irresistível, é o que ouço todas as manhãs, antes mesmo que eu desgrude os primeiros cílios. O coração geme angustiado, indócil aos lugares e situações que já deveriam lhes ser comuns, como quem chantageia o cérebro cheio das razões: me leve ao local desejado.

As idas eventuais, só confirmam qualquer intuição. O ar, as pessoas, o instinto de pertencimento a uma realidade que nunca foi minha, mas que parece ter sido inventada antes mesmo do meu nascer. Sabia que seria do mundo, e que as mil bolhinhas coloridas postas com tanto amor ao meu redor um dia iriam acabar. Mas quero cair num lugar legal. Rir, chorar, lutar e viver. Tirar os sonhos do modo stand by e sentir que apesar dos eventuais pesares tudo vai valer a pena.  

Como diria o poeta, é tempo de travessia. E conto os minutos para fazer a minha. A lição que fica? - Peixe de água salgada, não sobrevive em água doce, meus caros. Erro grande é pensar que qualquer água é água. 

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

green eyes


Queria escrever algo cheio de verde que falasse de você.  Sabe, cara... minha vida anda resumida à uma fileira de bolas verdes e falhadas, e isso é gozado. Bolinhas que eu conto ansiosamente todos os dias, e crio teorias malucas que envolvem quantidades, horários e letras. E fico desejando todas as manhãs que luas minguantes acinzentadas transformem-se em bolotas esverdeadas e me digam oi. 

Não posso deixar de citar as placas. E como eu configuro todos os sons bem alto, só pra te ouvir chegar. Cada ‘pan’ é um susto, uma batida mais forte no coração, que relaxa ou repica que nem bateria de escola de samba em dia de ensaio geral, se o nome tiver aquelas cinco letrinhas mágicas.

Ah, as letrinhas. Parecem as mais belas do mundo. Digo isso, porque nem os mais belos nomes conseguem me despertar tamanha alegria. Só o seu, singelo e lindo, com aquele acento safado na letra “u”. E chego a pensar que a gente combina, porque nosso nome está em completa sintonia: o meu também tem cinco letras, com direito a acentinho na primeira sílaba. Sacou? Fico tentando achar sinais do universo, os sinais mais idióticos que legitimem toda essa loucura colorida com a qual sonho de olhos bem abertos.

Olhos. Ainda é brega falar deles?  pois você tem os mais belos do mundo. Sim, não é só a cor, o formato, os cílios embonecados.  É o que consigo captar além da retina: uma energia linda, que seda e anestesia; um fio transparente que me puxa e convida à submersões sem direito a oxigênio, a fim de que eu, pobre descobridora, enxergue o que você teima em esconder bem lá no fundo, naquele baú cheio de carimbos.

Ah, amor... Como eu queria algo além dos beijos duplos e molhadinhos de fim de noite. Mas tenho fé que algum dia tu beberás da minha poção e entre uma madrugada e outra, finalmente, dançaremos como bêbados a nossa paixão: exagerados, sentimentais e viciados em bolotas, letrinhas, olhares e beijos mágicos, como tem que ser.


- e será.