Meus oito anos - Casimiro de Abreu
(Educandário Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento - Senhor do Bonfim-BA)
A casa antiga -> Não sei o porquê, mas amo essa casa. Não, ela não é minha, nem de ninguém que eu conheça, mas me atrai como canto de sereia. Ela não é 'bonitinha' nem moderna. É apenas grande e antiga. E tem muito verde. Um jardim imenso na frente. Acho charmosíssimo esse muro desgastado e o portão levemente enferrujado. Me lembra algum desses filmes. Moraria aí facinho. É um pedaço de não convencionalidade nessas ruas tão padrão: casinhas tons pastéis com texturas, pedrinhas, paredes e portões que impedem a visibilidade para qualquer parte da casa. Nunca encontrei alguém disposto a também morar nessa casa. Mas isso faz dela mais especial ainda.
O banco de praça molhado -> Isso era comum. Principalmente no inverno. E eu adoro essas gotas, e o frio e os bancos de praça. E é por isso que morro e não me acostumo com essa seca Petrolina. Tal como algumas flores - não reparem a pretensão -, preciso de água, ao menos em algumas épocas do ano, para renovar as energias. Usar casaco, sentar no banco molhado acidentalmente enquanto jogava conversa fora com amigos, comer churros quentinhos e contar os dias para o São João começar. Vivi tanto nesses bancos... Tanto que mesmo não sendo este o banco em que eu sentava (já que a praça foi reformada ano passado e foi tudo demolido) este banco, no qual eu nunca sentei, ainda traz a mesma energia.
(In Praça Nova do Congresso, Senhor do Bonfim - BA)
"De vez em quando eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno, bem no meio duma praça, então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta, mas tanta coisa que eu vou ficar calada um tempo enorme. só olhando você, sem dizer nada só olhando e pensando: "meu Deus, mas como você me dói de vez em quando..." (Caio Fernando Abreu)
Laços
Aqueles tamanquinhos de laço. Quanto me fazem falta. Saltinhos passeando pela casa, em sonoros 'toc tocs'. O peito vibra em onomatopéias antecipadas de saudade. É quase o mesmo que privação de açúcar. Você tenta usar adoçante, mas não tem jeito. Doce, doce mesmo, só ela sabe ser. E vem a vontade de não fazer nada quando está aqui. Prefiro ficar parada, ouvindo os seus sons. Som de torneira ligada, de vassoura, de portas a bater. O ruídos produzidos pela mãe mais linda do mundo soam como uma sinfonia, para os meus tão singelos ouvidos.
Só ela sabe queimar roupas de um jeito todo especial. Não é um queimado feio, sabe? é um rasgo com tanta, mais tanta vontade de acertar, que chega a ser belo. E mesmo as manias que não gosto - como a de jogar todas as minhas quinquilharias no lixo -, não me incomodam nem uma gota, comparada ao vazio que sinto quando não está comigo. Sempre soube que seria assim. Que nunca me adaptaria, que nunca deixaria de doer. ‘Com o tempo acostuma’, tanto ouvi. Mas nada. O tardar dos meses e anos, só aumentam a necessidade de convivência que tenho.
Só ela tem um senso de humor ímpar. Conhece a forma exata de me consolar: Arranca risos quando sarcasticamente linda instiga a pobre filha a beber wisky logo pela manhã, fumar baseados pra relaxar, de brincadeirinha. Só minha mãe, pra perceber que afagos e dengos não resolvem as minhas crises.
Só ela sabe imitar as vozes de todas as pessoas, tornando qualquer diálogo, por mais simples que seja, muito mais engraçado. É de uma meiga lentidão para entender certas coisas – mania esta que herdei em parte –. Tem uma forma peculiar de dançar. E só ela, atende o telefone como uma lady. E cheira sempre bem – mesmo após um dia todo de trabalho.
Somos carne de uma só carne. O pires e a xícara, a orelha e o brinco, o sabão e o prato sujo. Rio e afluente, azar e talismã. Mãe e filha que mais parecem irmãs. Amigas.
Devaneios, saudosismo e noites mal dormidas.
Mal podia soerguer as pálpebras trêmulas àquela manhã. Os fios de luz que penetravam a parede azul causavam dúvida ao se misturarem com os lençóis brancos e rendados: estaria no céu? Não fosse a renitente dor de cabeça pensaria habitar qualquer lugar, menos o artificialmente gélido quarto. Foi então que percebendo cada membro, fui alvo de uma quase paraplegia imaginária e arrastei-me como se pesasse 90 kgs até estar sentada, com as costas devidamente alcochoadas no travesseiro de consistência análoga à de um pedaço de algodão doce: daqueles, que os médicos não recomendam e naquelas posições estonteantemente erradas, de tirar o sono de qualquer fisioterapeuta.
Queria abstrair todo aquele dia que estava por vir. Dormir novamente, acordar e pensar: ah-rá! bom 2010 pra mim. Sabia que o outro ano iria ser bom, mesmo sabendo, que na verdade, assim como as chuvas na zona de convergência no pacífico sul, àquela previsão poderia falhar. Mas seria bom, reforçava pra mim mesma todos os minutos, acreditando na técnica da repetição como desencadeadora de diversos desejos. Queria dar um basta na lei de Murphy, que há 365 dias, de uma forma ou de outra regia minha vida total e absoluta, sem controles de constitucionalidade, emendas, ou coisa parecida. Para uns, maré de azar, para outros destino. Vida, e suas consequências naturais, pros mais sensatos, era o que acontecia.
Estava na corda bamba. Como uma equilibrista de pratos decadente, com o solado gasto em cordas ainda fortes. Ia descartando os pratos, de um a um, na esperança de reduzir o trabalho. Outros, deixava cair por mero descuido. Mas uma coisa era fato: a platéia, já cansada, deixava em rítimo vertiginoso as cadeiras metálicas da arquibancada. Silêncio, solidão e dificuldade. As roupas puíam e a gravidade não dava folga: sempre tratando de atrair tudo pra baixo. Inclusive os pratos, inclusive as roupas, inclusive a mim. Que seria da pobre equilibrista no palco? Não sabia das suas habilidades. Palhaça, pensou. E teve certeza de que não precisaria sequer entreabrir os lábios para arrancar risos descontraídos. Tornara-se aquela figura: exagerada, excessivamente maquiada e sem noção.
Queria bis. Não da platéia: isso tinha ficado esquecido. Queria mais chocolate. Uma caixinha inteira, se desse. Ia tirando um a um da embalagem, tirando o papel da forma mais ágil possível, já subindo em direção à boca. Dobrava os papéiszinhos, um a um, naquele tom de azul escuro e brilhante, que lembrava bolas de natal. Geralmente eram douradas, vermelhas ou verdes, as bolas. Mas eu gostava muito das azúis. Azul era de longe, a cor preferida. Azul e branco: as cores do céu. E coincidentemente, o meu primeiro aniversário teve como tema ' Uma festa no céu ' - nada de Mônica, moranguinho, Cinderela ou coisa parecida -, uma festa no céu!, minha mãe batia o pé, mesmo com todos cientificando-a da preferência das mães de meninos por aquela temática nada cor-de-rosa.
Não deu outra: anjos, estrelas penduradas e todo o teto forrado de azul. Casas feitas com biscoitos e balas, ao estilo João e Maria, decoravam as mesas e faziam a alegria da garotada. Menos a minha, que impaciente, clamava por um pouco de paz. Onde estava a celestialidade em toda aquela gritaria? eu deveria estar pensando. Minha mãe conta, que tive um surto, e comecei a morder os convidados que se aproximavam. Não eram lá grandes mordidas, mas as mais fortes que eu podia dar com os meus quatro dentinhos. Mesmo assim, foi a festa mais linda que eu já vi. Com as músicas mais lindas que poderiam existir em um aniversário de criança.
Vinte anos depois, ainda carregava traços daquela festa: A preferência inexplicável pelo azul e pelos meninos. Aquela vontade de paz, que poderia ser obtida mordendo quem quer que se aproximasse pra perturba-la. A música, que até hoje faz com que os olhos marejem.
E vem a vontade de sentir o cheiro da madeira e ouvir o assoalho da sala a ranger. Como podia odiar os sofás de veludo e a madeira? Todo o galmour decadente, do chão de mármore do banheiro e porcelanas chinesas, já desgastados pelo tempo tinham se transformado em saudade. A cama rosa -que agora é branca-, com flores entalhadas na cabeceira, era tão linda. A minha penteadeira - herdada das tias, como todo o restante do quarto- datada do final dos anos 70, o guarda-roupas, com os horários do ballet escritos na parte interna das portas, pra não esquecer, e a janela, que dava pra parede do quintal, onde eu mesma media a minha altura, com tracinhos cada vez mais altos, ficaram no passado. Agora, mudo de casa quase todos os anos. E sinto que permanecerei mudando e mudando. Até me aquietar em um lugar, em alguém. Até ser forte, até ter norte. Sorte.












