João e Maria da modernidade

Tinha cansado de sobras: talvez depois da praia, depois daquela série idiota, depois do cigarro, depois do bar, depois da festa, depois da boate, depois do papo com os amigos. Talvez depois de uma coisa qualquer, como brincar com o cachorro ou trocar idéias com o caseiro. Quem sabe uma sobrinha após o cochilo? Mas depois de tanta espera era comum um -  não, não.  agora quero mesmo é me jogar no sofá e não pensar em nada.

A verdade é que eu havia passado um bom tempo tentando achar brechas, cavar espaços,  inventar técnicas absurdas para prender a sua atenção. Queria inventar um lugar pra mim em sua vida, um papel ainda não preenchido: um tempinho pra chamar de meu. Mas passei longe do êxito. A peça já estava cheia de atores e o diretor estava plenamente satisfeito. – Vai uma vaguinha de arbusto, aí?

Migalhas, eram o que eu tinha. Uma mensagem esporádica na madrugada, um “oi” virtual às vezes. Talvez conversas semi-longas, regadas à demoras, esperas:  típicas de quem não está tão interessado assim.

E saía feito passarinho, beliscando insistentemente os pedacinhos de pão que você largava com displicência no parapeito da janela. Era uma jornada quase suicida, sabia. Mas apesar do claro prenúncio de tragédia, a única coisa que tirava o sono, era a simples possibilidade da completa ausência de migalhas.  O passarinho tinha asas frágeis – e até sabia disso – mas tinha fome inadiável, de qualquer coisa: no caso, mini restos – ou gestos –  de carinho.

Tinha fé, algumas vezes. Pensava que talvez o caminho de migalhas a levasse a uma casa coberta de doces – bem João e Maria, eu sei  –, mas logo lembrava que contos de fadas eram ilusões quase cruéis de se acreditar. Não haveriam gostosuras no final: ou pelo menos nada que valesse o sacrifício daquela  jornada  mendicante.



me faz nuvem



Me faz nuvem, algodão doce, suspiro ou outra coisa muito leve. E preciso dizer que desde alguns meses atrás sinto-me acolhida com aquele abraço de quem não deixa espaços vagos. Impossível ter deixado passar batido o encaixe dos lábios e o "medidor biológico de química" que apitava, em tom de comemoração, o que eu já soube desde o primeiro olhar daquele fim de tarde. '- É ele.', meu corpo afirmava internamente, proliferando a informação por cada célula, tecido, órgão e membro, excluindo somente a parte racional do cérebro. Não tive escolha, juro.

Me faz nuvem de chuva - carregada de raios e trombas d'água ou  de pequenas gotinhas daquelas que só fazem carinho nas folhas -, de areia - livre e viajante por este e outros solos -,  ou de qualquer coisa que se espalhe e percorra longas distâncias facilmente. E é assim que me faço próxima: voo, deslizo em 4, 8 ou mil rodas só pra sentir outra vez aquele coquetel de sensações.

Me faz nuvem, carinho, petit gateou, cócegas, amor, canção ou qualquer coisa que traga bem estar. Incrível como manipula alquimisticamente os meus sentidos, um a um, criando misturas inéditas de seres e estares que eu sequer sabia da existência. É como estar eternamente em dia de estréia de 'quem sou e do que gosto', com direito a frios na barriga, ansiedade e medinhos gostosos. 

É, amor, só você me faz nuvem e consegue moldar primorosamente todos esses risos na inconstância da minha névoa tão louca. Sim, me faz nuvem! e consegue tirar todo o peso dos meus dias usando um par de olhinhos sapecas -, me faz nuvem quando acredita que posso estar muitos metros além do que imagino. Me faz nuvem. E linda. E apaixonada. Ou qualquer coisa que me deixe assim, com esse sorriso bobo de FELICIDADE.



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