Nós que somos moços.


"Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida inteira. Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer "pelo menos não fui tolo" e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. "
 
Clarice Lispector
(...) No fim destes dias encontrar você que me sorri, que me abre os braços, que me abençoa e passa a mão na minha cara marcada, na minha cabeça confusa, que me olha no olho e me permite mergulhar no fundo quente da curva do teu ombro. Mergulho no cheiro que não defino, você me embala dentro dos seus braços e você me beija e você me aperta e você me aquieta repetindo que está tudo bem, tudo, tudo bem.
Caio F. Abreu


e a única loucura, não pensar.

O que vou dizer agora é de fazer com que as pessoas se ajeitem nas cadeiras, esfreguem os olhos e olhem fixamente para o monitor. Vou afirmar, mas não duvidem do espanto que isso poderá causar, ou até mesmo dos risos. Pois bem, aí vai: é que... eu ainda acredito nas pessoas.  Pensou que fosse algo mais bombástico, né? Confessa. Essa coisinha de acreditar ou não já está mais que batida. Tão batida, que passa despercebida entre as inúmeras questões que ainda merecem discussão.

Depois de 21 anos, quase 22, cofesso: adquiri certa malícia. Desde os primeiros passos até aqui, foram muitas decepções com pessoas. De apunhalamentos à 'eu te amo's vazios de sentimento. Já presenciei mil tipos de mentiras. As mágoas? inevitáveis.

O problema é que a descrença, a princípio pode até parecer mais inteligente.... só que não combina comigo. Pra mim, o 'não acreditar' tem algo de amargo e triste que eu não quero entre os meus dias. Nada impediu, todavia, que mecanismos de defesa contra as mentiras fossem criados. E foi aí que passei a observar.  Interpretar olhares, filtrar palavras, reparar nas ações. Então, um cruzamento lógico de dados, experiências e evidências acontece, totalizando ao final, não a mentira, mas a quantidade de verdade que posso esperar. Isso tem funcionado bastante.

O fato, é que nem sempre estou disposta. Há casos em que o que eu quero é fechar os olhos e sentir. Não pensar, não interpretar, não notar nada que desconstrua a magia de um momento. É uma espécie de nirvana. Um flutuamento, um riso sem sentido, um suspiro e os olhos... ah os olhos como brilham e dançam  alegremente. E vem um frescor, um alívio. Penso: é verdade, e acredito piamente. 

E aí, algumas vezes percebo que não era tão real assim. Ou que apesar de verdadeiro era frágil e efêmero. E aí sinto. A dor do engano, que é uma dor parecida com a de saber que não é verdade, antes mesmo de acreditar. Quer saber? no final, dá quase no mesmo. E é por isso que optei. Optei por acreditar e dançar sem música, fazer planos secretos e sorrir para as criancinhas na rua. Escolhi não ter escolha e sentir o vento no rosto, ouvir músicas alegres e depois tristes e sentir vontade de dormir quetinha,  por muiiito tempo, após perceber que na verdade... quem sou eu para saber o que é verdade? é só o sonho que acabou. Uma aspirina pra dor existencial e um remédiozinho pra não pensar, por favor.





borboletando

E a vida tem o condão de surpreender sempre. Nós pedimos, desejamos, almejamos e ficamos em casa. E nos perguntamos o porquê das coisas não acontecerem. Eis que um dia, numa tarde chata de domingo a gente resolve sair da toca. Sem pretensões, com medo. Talvez o tempo de 'reclusão' tenha afetado a capacidade de socializar. E se eu tiver fobia de gente e quiser ir embora assim que chegar? vontadezinha de desistir e permanecer debaixo dos cobertores comendo lazanha congelada e assistindo aos meus filmes, sonhando que algo deles se transporte para a vida real. Mas não. A vidinha pra dentro alimenta mas não preenche. E a fome continua. Fome de gente de verdade, conversas, sorrisos e sensações.

Então a gente toma coragem: Toma banho, toma vergonha na cara, toma as rédeas do marasmo e decide dar a cara a tapa ao mundo, novamente. Depois de tomar tantas coisas, a gente descobre que tomar uma cervejinha não faz mal a ninguém. E aí, tira a caneta que prende os cabelos desgrenhados,  espreme aquele cravo, passa um protetor solar e fica pronta pra vida, enquanto tudo começa a acontecer de verdade. 




quase nunca falo de direito, mas...


Naquela manhã, tinha tido contato com uma série de audiências. Em uma delas, um homem, dono de uma frontier, processava a empresa Nissan, devido à defeitos de fabricação em seu automóvel. A Nissan, imbatível, não quis saber de acordo. Na outra audiência, a dona de uma F1000 furtada no River, pleiteava idenização por danos materiais contra o referido shopping, que diferentemente da outra empresa, optou pela conciliação, pagando R$ 21.000 à autora da ação. Saio do fórum  nada encantada. Não era muito chegada  em discussões sobre os bens. Gostava mesmo era de gente, pensava.

Entro em um dos prédios mais bonitos da avenida. Atrás das grandes portas de vidro , após percorrer escadas e corredores, eis que chego à salinha do promotor. Encontro pilhas de processos coloridos a enfeitar as mesas, prateleiras e até mesmo o chão. Dentro daquelas pastas cor de rosa estão mais que papéis, penso. Aquela saleta era o setor de infância e juventude.


Começei a folhear um boletim de ocorrência enquanto o mundo diminuía assombrosamente de tamanho. O meu coração era esmagado a cada declaração. Um dos meninos, havia ameaçado de morte o dono da casa a qual furtara. Segundo a vítima, o  infrator o teria afirmado com todas as letras que beberia o seu sangue. Vampiro juvenil e totalmente desnorteado. Provavelmente drogado, certamente carente da educação, família, lazer e saúde que lhes são garantidos constitucionalmente. Um outro menor, resolvera desferir golpes de faca aleatoreamente em pleno São João. Em meio a bandeirolas, arrastapé e comidas típicas, uma faca do tipo peixeira reluzia entre a multidão, banhada em sangues diversos. Já outro menino, um pobre engraxate, sob o uso de drogas como crack e tinner resolveu invadir uma residência em plena luz do dia. O saldo: um secador, um micro system e uma apreensão pela polícia.
 
Eu tinha o condão de interferir em todas aquelas vidas. E o meu vasto mundo agora era menor que o planetinha do pequeno príncipe. Em um assento alcochoado mergulhava em um caminho sem volta. Tenho apenas duas mãos, suspirava: e o sentimento do mundo.


Mais:

Estatudo da criança e do adolescente: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8069.htm
Ministério Público: http://www.mp.pe.gov.br/

da falta de inspiração

É engraçado como a felicidade não me inspira. Talvez seja porque escrevo para expulsar. Então vou permanecer aqui, assim quietinha. As pupilas vão dançar pelos olhos enquanto sorrio misteriosa: poeticamente calada. Segredo.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...