Títulos clichês e surpresas.

Semana inútil, esta última, não fosse a leitura de um destes bests sellers indianos. Digam o que quiserem, mas essas historinhas adocicadas, que tratam de amizade, diferenças culturais, sócio-econômicas e até religiosas têm seu valor. "O caçador de pipas", "O menino do Pijama listrado" e agora "A distância entre nós" estão entre os meus queridinhos. 

A história narrada por Thrity Umbrigar parece-nos meio corriqueira, de início. Mas no passar de algumas páginas a trama cresce e adentra campos mais densos. Achei verssímil e bem arituculada a forma como a autora enxerga o ser humano e retrata as suas angústias.

Longe de ser uma avalanche de clichês, que eu confesso estar esperando ao julgar pelo título, "A distância entre nós" foi uma ótima indicação*. Não vou fazer um resumo da história porque estou com preguiça. Mas fica a dica para uma leitura "leve" e interessante para o fim de semana.


* do meu amigo Neto, dono e emprestador do livro.

entre um borrão e outro

Formam um quarteto livre. Desfilavam desimpedidamente cada curva, bem como as faces em nuances de brilhos e efeitos-mate. Os sorrisos fartos e sinceros, emoldurados por feições ainda tão jovens pareciam inundar aqueles bares escuros e duvidosos por onde pousavam. As ruas sinuosas não impediam o andar equilibrado, apesar das mentes - tão atordoadas - não apresentarem o mínimo sinal de normalidade. Eram velhas mulheres prematuras. Distantes dos convencionalismos e do "rala até o chão" tão anestesiante nessas épocas de caos. Melhor seria se fossem burras, acessíveis, dadas?

Talvez a hermeticidade dos seus diálogos ou os versos, hora ou outra recitados entre músicas bregas de bar espantassem os cavalheiros. Duvidavam, na verdade, que houvessem cavalheiros alí. Glamour mais que decadente o que encobria àqueles olhos curiosos, empretecidos e melacólicos. Percebiam o ambiente,  à medida em que bebidas, cigarros e aperitivos, misturavam-se às fragrâncias dos perfumes, tatuando em suas peles os dizeres mais quentes (nada sutís).

Não fossem as lágrimas e o brilho nos olhos, consideraria caso perdido. Mas aquelas mulheres eram fortes demais. Extraíam de todos os sábados de dores, os dizeres mais certos. Falam de amor com sinceridade: nada de idealismos ou melosidade. Sonhavam conscientes. Apenas pelo gosto doce da divagação gratuita. 

Com o dia já claro, gargalhavam, ao notar os borrões faciais e morais. No fim, nada que um punhado de lenços umedecidos e algumas horas de sono - na casa mais próxima -  não resolvessem. 

desabafo de atriz.

A fome sempre chega, uma hora ou outra. Não adianta tentar desviar o foco: olhar revistas de moda, pensar no novo apartamento ou iniciar a leitura de um romance indiano qualquer. As poesias já parecem as mesmas, as crônicas, e as páginas sempre em branco na agenda - exceto por um ou outro lembrete de consultas médicas -. Meu mundo tomou a pílula do encolhimento. Do trivial ao inovador: tudo se repete.Como pode ser? Não, eu não errei: o inovador tem se repetido. 

Sinto-me um Truman[1] patético da vida real. Sempre caíndo nas mesmas armadilhas. Será de propósito? talvez. Medo de sair do roteiro pré-escrito por mim. O que foge às falas originais é displicentemente cortado. Partes sem nexo de um drama que sequer sei o fim. "Abstrair e fingir demência" tem sido o lema. Já mastiguei e remoí todas as situações, salvo... Ah, esquece: o que não tá no script a gente esquece. 

Vontade de inovar a trama. Mas como? sequer sei escolher o elenco ou delinear as minhas próprias falas (sim, escrevo e protagonizo o tal folhetim fracassado). Sem nexo algum, vão se desencadeando os fatos. Com um "- Corta!" aqui, outro alí.  É fato: tornei-me a heroína às avessas mais previsível. Essa é a parte em que todos dormem, mudam de canal, olham as mensagens no celular ou levantam para ir ao banheiro e comprar pipoca. 

E como tenho vivido de paleativos, hora do desvio estratégico no enredo: vou dar uma de Bela adormecida (em tempo real). Daqui a cem anos acordo. Beijos.

 


[1] de "The Truman Show", filme estrelado por Jim Carrey.
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