Sabe, eu bem que queria contar uma historinha de conto de fadas nordestino. Mas é que a vida não tem facilitado. Vou a guerra desarmada com meu escudo de tampa de lixeira (aqueles que só vemos em desenhos animados) e levo muita pancada. Mas aprendi a voltar inteira. No blood, no tears. Trago na bagagem mais do que levei e sigo calejada. E a gente vai aprendendo a viver. Mesmo que seja pra dentro.


"Não quero ser o grande rio caudaloso
 Que figura nos mapas.
 Quero ser o cristalino fio d’água
 Que canta e murmura na mata silenciosa.”



 (Helena Kolody, in Sinfonia da Vida, Pólo Ed. do PR, 1997, p.28 e 29)

Vem


Me conte uma história, um causo ou apenas narre o seu dia dos mais comuns. Elogie o aroma do meu novo shampoo enquanto acaricia os meus cabelos, retirando aquela fina mecha que insiste em ficar entre os lábios. Traga-me um chocolate ou uma poesia, transcrita às pressas em um pedaço de papel amassado, mas não esqueça de entregar-me uma carta de amor (de preferência amarrada em fitas de cetim) todos os meses. 

Me olhe, algumas vezes por dia, de forma carinhosa: me veja, sobretudo. Escute as minhas lamúrias e se mostre interessado. Pense comigo em soluções rápidas para os meus problemas. Sonhe. Dê corda aos meus planos mirabolantes: queira fazer parte deles comigo. Planeje coisas lindas e até absurdas para daqui a dez ou vinte anos. Associe uma música a cada situação. Encoste o nariz em meu rosto ao me beijar e não esqueça de tocar cada centímetro com a ponta dos dedos. Me abrace: muito e intensamente. 

Deixe que eu suma entre você e o seu casaco dois tamanhos maior. Tome um banho de chuva comigo. Ou namore na porta de casa, na garoa, enquanto entre um beijo e outro trememos os lábios arroxeados e sorrimos. Me carregue no colo para dormir. E não esqueça do beijo de boa noite. Comente sobre como sou linda até no período pré-menstrual, cheia de espinhas e inchaços. Suporte com carinho as minhas TPM’s. 

Leia e compartilhe coisas interessantes comigo. Me conte sobre os seus cálculos e projetos que eu não entenderei e ainda assim ouvirei interessadíssima. Me deixe só de vez em quando, só pra ter tempo de sentir saudade. Seja verdadeiro sempre: não minta, não adie conversas e diga o que sente. Demonstre o seu ciúme, e que ele seja saudável e engraçadinho sempre. 

Quando eu te mostrar dois pares de sapatos vermelhos, opine. E não fique triste quando notar que geralmente escolho justamente o que você não escolheu. Cozinhe para a mim, cozinhe comigo  ou não cozinhe, mas por favor: não me deixe lavar os pratos jamais. Me ligue todas as manhãs, tardes e noites. Ou não ligue e apareça de surpresa no fim do dia. 

Me dê flores depois das brigas e saiba pedir desculpa quando necessário. Deixe que eu perceba como você se sente pleno fazendo qualquer coisa ou até mesmo nada comigo. Me leve para sair. Entenda que odeio rotina. Inove. Fale de amenidades como céu, nuvens e de amor. 

Capte os meus olhares. Entenda o significado de cada um dos meus mil sorrisos. Ache linda a minha voz infantil e não queira que eu me livre dela.

Livre, deixe-me livre sempre, mas mantenha-se por perto. Eu sei que são muitos pedidos e alerto que ainda existem mil outras coisas a te dizer. Mas garanto que a troca vai ser bonita. Sem querer abusar, mas já abusando: faça-me o favor de existir?



                   Somos som, silêncio, sonhos, saudade. Sede salivar, somente? seria simplismo. Sincero sentimento semeado. Somos sortudos! Sensações surreais, sublimes, sempre. Soam sinos, sirenes. Sobrevoam sabiás. Sinhô, sou sua. Solta, suave, sem sufocos, sem sujeiras, soslaios, suplícios. Só sins, simplesmente: soltos, submissos, soberanos. Segundos separados são setecentos séculos.
                   Salvador, sertão: sobreviveremos? suspense. Suspiro sozinha, soletrando sonetos. Seus sinais saciam sentidos. Sigo seduzida, sedenta, sem sapatos, sandálias, saltos: semi-nua . Surgindo selvas, semi-áridos, Sibérias, simplesmente seguirei. Superaremos serras, sociedade sisuda, solidão, subordinações. Subsistirão subjetivismos, sorrisos, sorvetes, sóis, sombras, serenatas, sinfonias, soluções.
                   Sinhá seguindo sentenças, sonhando ser socióloga. Sinhô subvertendo slogans, sincronizando seus sons, solos, sossegos, substâncias, spinozismos. Será solitária semana: Sudeste, samba, sampa. Sua senhorita, Senhor do Bonfim. Serei só saudade.


* Texto antigo, só pra não perder o registro.
Que de tão vazia encontrava-se cheia. cheia de si. cheia de tudo.
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