Repousei no céu azul pálido. Como estava calmo o firmamento. Debruçada na janela, constatei que as nuvens eram as culpadas, logo após testemunhar o capricho de tão alvas donzelas. Eram leves, mas densamente inspiradas: arrastavam-se com esmero em dissolvições e fusões ritmadas. Como quem diluíam uma grande tela azul, eram mistério e mistura: suave e divina aquarela.
Tristeza às avessas*
Um sábado de quentes alegrias. Dia nublado. Não tão nublado que escondesse totalmente o sol e pintasse a paisagem de cinza. Era um nublado bonito, o de hoje, daqueles que deixam brechas para alguns raios de sol. Não me pergunte o que há de especial em tirar fotos 3X4, comprar uma saia que tem laço ou um colar falso de pérolas. Eu preferia não tentar entender o porquê de estar me sentindo tão feliz, fazendo coisas tão corriqueiras. Tinha medo de que por não ter causa, a felicidade não tardasse a me abandonar. E aproveitei pra ouvir músicas antigas, que me traziam boas lembranças. Elevei o som do carro ao volume mais alto que pude suportar, cantei alto e me movimentei o quanto pude, naquilo que não sei se poderíamos chamar de dança. E assim a alegria me fez companhia ao longo do dia. Não que eu ficasse distribuíndo sorrisos a todo momento, mas podia sentir que o meu olhar estava leve e sereno. A noite veio para coroar: amigos, boa comida e ótimas gargalhadas. Não poderia ter sido melhor. Depois da tempestade, rastros de calmaria.
"O que eles deixaram foram estes três postulados: importante é a luz, mesmo quando consome; a cinza é mais digna que a matéria intacta e a salvação pertence apenas àqueles que aceitarem a loucura escorrendo em suas veias."
(Caio Fernando Abreu)
* Título sugerido por Fau.
"Não nos provoca o riso o amor quando chega ao mais profundo de sua viagem, ao mais alto do de seu vôo: no mais profundo, no mais alto, nos arranca gemidos e suspiros, vozes de dor, embora seja dor jubilosa, e pensando bem não há nada de estranho nisso, porque nascer é uma alegria que dói. Pequena morte, chamam na França a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntar-nos, e perdendo-nos faz por onde encontrar e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem; mas grande, muito haverá de ser, se ao nos matar nos nasce."
tente outra vez
Precisava passar por uma desintoxicação, com urgência. Bastavam R$ 4,00 e um punhado de bons amigos, para que tudo fosse resolvido. Assim, fizemos da sala de estar o palco para todas as perfórmaces. Não lembro muito. Só sei que entre um brinde e outro, toda a melindrosidade saíu de cena. O tilintar das taças embalava a liberdade, que fez questão de subir ao palco, envolta em ares triunfais.
Ser feliz não era crime, mas todos naquela noite eram cúmplices. Segredos de todos os gêneros caíram por terra. De senhas pessoais até intimidades mais profundas: não existia temor ou qualquer sombra de pudor. Os sorrisos maliciosos denunciavam o delito: havíamos matado, sem dó, qualquer melancolia.












