Viva aos diários!

Tentei esconder, evitar e mentir pra mim mesma, que aquilo tudo não tinha mais razão de ser. Um vazio imenso (aquele, inerente a quem pensa) tomou conta dos meus pensamentos. Sim, parei de escrever. Parei de extravasar os meus pensamentos, angústias e alegrias.

Há muito tempo atrás ganhei um diário. Nele, externava os acontecimentos marcantes de cada dia. Nos primórdios, narrava as idas à casa de uma amiga para brincar de Barbie. Depois, as provas difíceis na escola. Logo logo, o meu diário virou um depósito de queixas amorosas. Milhares de desabafos enfeitados com clipes coloridos e papéis de bala. O ingresso da festa que meus pais não me deixaram ir, carta de amor nunca enviada, lembrança do falecimento de uma prima. Os meus diários tinham de tudo! Um dos últimos, guardava recordações do primeiro namoro, recheado com pétalas de rosa e folhas secas.

Escrever sempre me fez bem. Deve ser porque é uma forma de eternizar o passado, deixar um vestígio histórico da Lívia que fui e de como ela enchergava o mundo. O problema, é quando o tão íntimo livrinho caía em mãos erradas. Quanto a isso, sei que minha mãe leu algumas vezes ( inclusive a página em que eu narrava o meu primeiro porre, e isso não deu nada certo), e minha melhor amiga era capaz de implorar por horas para que eu a deixasse ler ao menos algumas páginas. Mas acho que nunca deixei. 

O tempo foi passando, e a tecnologia ganhando espaço. As fotos deixaram de ser reveladas, as cartas viraram e-mails e os diários se transformaram em blogs ou fotologs. Como não podia deixar de ser, eu entrei nessa e abandonei o meu tão belo hábito de escrever memórias. Criei esse blog, e escrevi durante muito tempo apenas para mim, apenas nos momentos em que estava imersa em trevas. Deixei de narrar fatos corriqueiros, para externar lamentos, angústias, inquietações. Agora, resolvi "mudar" e abrir ao público esse meu diário. Resolvi mostrar o que penso, o que vejo e o que sinto. Pode ser que não me entendam, que me achem estranha ou demasiadamente melancólica. Mas quem liga pra isso, se no meu mundo apenas eu sou normal ?


Sessão textos antigos.

Andei fuçando e re-descobri um antigo blog. Os textos são de 2007 e refletem alguns anseios da época.

13 de setembro de 2007

Versos livres

O pessimismo me cerca.
Roda-me silenciosamente todo o tempo.
Tento fugir, mas ele vem chegando de mansinho,
e quando percebo, já tomou-me por completo.

Fujo, mas de nada adianta
Resta-me apenas o temor vazio
Diante de dias tão tristes,
Vejo-me em meio ao calor, sentindo frio.

A chama quente da noite não é o bastante
Sinto-me mais só a cada instante
E dos momentos bonitos que guardo
Resta a saudade exultante.

Escrever não é remédio
Entretanto, ajuda a aplacar o tédio
O amor virou ferrugem
A mente, fina penugem que voa.

Voa em busca do infinito, do bonito
Do raro.
Voa em direção oposta àquela que me é destinada
Voa pelas asas do inconformismo
Resultante daquilo, que não foi guardado.



15 de setembro de 2007

Cidade nova, amizades novas, Recente mudança de perspectivas. O primeiro dia de aula, marca o início oficial de todas essas modificações. Adentro através dos enferrujados portões, enquanto, sorrateiramente olho a minha volta, em busca de algo que não existe ali. Logo, sinto falta da minha mãe. Por que ela não está aqui?! - indago. Sento-me então no banco de pedra, à sombra de uma frondosa árvore. Olho para as pessoas ao redor, e estas, me fitam insistentemente. Logo, fito-as de volta, e deixo gravado alí o meu olhar, a minha sombra, o meu eu. Inconscientemente, entrego-me àquele lugar, e sei, que dalí, sairei muito diferente. Decido procurar a minha sala, escorro pelos corredores ansiosamente. Vejo na espessa parede branca, quadros, com fotos e nomes de estudantes anteriores a mim... Sei que um dia, também serei uma fotografia no na parede. Percorro sinuosos caminhos, e espio por entre as brechas de algumas portas. Vejo uma saída. Caminho sobre o chão de cimento, olhando a areia e enormes mangueiras que nos cercam. Avisto uma última portinha azul. É lá -Eis a minha tão esperada sala. Chão branco, paredes rudementes pintadas da mesma cor, cortinas azuis, levemente tortas, cobrem as desajeitadas janelinhas também azuis. Atrás da sala, mais árvores, e uma rústica mesa de madeira, suja com restos e cascas de frutas. Ambiente bucólico, talvez pela proximidade com o campus de agronomia. O incrível, é que gosto. Me sinto aconchegada e feliz, nessa meio chácara, meio faculdade, que agora roubará grande parte dos meus dias. Anoitece. Hora de ir, penso como estou feliz. Amanhã, tudo novamente, eis a mágica que encanta a gloriosa rotina da vida!


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