A arte de não mais ignorar chamados.


E o chamado teima em ressurgir.  Tento caminhos alternativos o tempo todo: o mais perto,  o mais lógico, o que agrade a um maior número de pessoas, o mais fácil. Mas enquanto os ciclos se completam  o meu destino teima em traçar mil retas nada paralelas que convergem sempre no mesmo ponto.

Já chamei de carma, sina, azar e predestinação. Agora, prefiro acreditar e aceitar os tais “avisos cósmicos” e suspirar aliviada: pronto, destino. Você venceu. Nada de lutas infindáveis tentando brigar com o que está mais que claro: alguma coisa me quer lá. Canto de sereia irresistível, é o que ouço todas as manhãs, antes mesmo que eu desgrude os primeiros cílios. O coração geme angustiado, indócil aos lugares e situações que já deveriam lhes ser comuns, como quem chantageia o cérebro cheio das razões: me leve ao local desejado.

As idas eventuais, só confirmam qualquer intuição. O ar, as pessoas, o instinto de pertencimento a uma realidade que nunca foi minha, mas que parece ter sido inventada antes mesmo do meu nascer. Sabia que seria do mundo, e que as mil bolhinhas coloridas postas com tanto amor ao meu redor um dia iriam acabar. Mas quero cair num lugar legal. Rir, chorar, lutar e viver. Tirar os sonhos do modo stand by e sentir que apesar dos eventuais pesares tudo vai valer a pena.  

Como diria o poeta, é tempo de travessia. E conto os minutos para fazer a minha. A lição que fica? - Peixe de água salgada, não sobrevive em água doce, meus caros. Erro grande é pensar que qualquer água é água. 

green eyes


Queria escrever algo cheio de verde que falasse de você.  Sabe, cara... minha vida anda resumida à uma fileira de bolas verdes e falhadas, e isso é gozado. Bolinhas que eu conto ansiosamente todos os dias, e crio teorias malucas que envolvem quantidades, horários e letras. E fico desejando todas as manhãs que luas minguantes acinzentadas transformem-se em bolotas esverdeadas e me digam oi. 

Não posso deixar de citar as placas. E como eu configuro todos os sons bem alto, só pra te ouvir chegar. Cada ‘pan’ é um susto, uma batida mais forte no coração, que relaxa ou repica que nem bateria de escola de samba em dia de ensaio geral, se o nome tiver aquelas cinco letrinhas mágicas.

Ah, as letrinhas. Parecem as mais belas do mundo. Digo isso, porque nem os mais belos nomes conseguem me despertar tamanha alegria. Só o seu, singelo e lindo, com aquele acento safado na letra “u”. E chego a pensar que a gente combina, porque nosso nome está em completa sintonia: o meu também tem cinco letras, com direito a acentinho na primeira sílaba. Sacou? Fico tentando achar sinais do universo, os sinais mais idióticos que legitimem toda essa loucura colorida com a qual sonho de olhos bem abertos.

Olhos. Ainda é brega falar deles?  pois você tem os mais belos do mundo. Sim, não é só a cor, o formato, os cílios embonecados.  É o que consigo captar além da retina: uma energia linda, que seda e anestesia; um fio transparente que me puxa e convida à submersões sem direito a oxigênio, a fim de que eu, pobre descobridora, enxergue o que você teima em esconder bem lá no fundo, naquele baú cheio de carimbos.

Ah, amor... Como eu queria algo além dos beijos duplos e molhadinhos de fim de noite. Mas tenho fé que algum dia tu beberás da minha poção e entre uma madrugada e outra, finalmente, dançaremos como bêbados a nossa paixão: exagerados, sentimentais e viciados em bolotas, letrinhas, olhares e beijos mágicos, como tem que ser.


- e será.
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