Um diálogo de Gian Fabra.

- Só sei que nós nos amamos muito...
- Porque você está usando o verbo no presente? Você ainda me ama?
- Não, eu falei no passado!
- Curioso né? É a mesma conjugação.
- Que língua doida! Quer dizer que NÓS estamos condenados a amar para sempre?
- E não é o que acontece? Digo, nosso amor nunca acaba, o que acaba são as relações...
- Pensar assim me assusta.
- Porque? Você acha isso ruim?
- É que nessas coisas de amor eu sempre dôo demais...
- Você usou o verbo 'doer' ou 'doar'?
- [Pausa] Pois é, também dá no mesmo...


Retirado de: http://gianfabra.blogspot.com/

Infância amorangada - epílogo

NO POST ANTERIOR:
"Nesse momento, tive os pensamentos interrompidos por minha mãe, que ansiosa me apressou: - ande, prove logo! E aí o medo aumentou. Não fazia muito tempo que minha querida e amada mãezinha havia me induzido a tomar de uma só vez um copo cheio de "emulsão de scott" (um composto de vitaminas e óleo de fígado de bacalhau bem tradicional, que os pais dão pra criancinhas que consideram magras) dizendo ser "vitamina de banana, mas com gosto de framboesa".

            Poderia eu, após o referido incidente confiar novamente? E o morango? E se a fruta de verdade não fosse tão deliciosa quanto a artificialmente projetada para agradar os paladares infantis nos biscoitos, ki-sucos e batons? Hesitei. Olhei a frutinha pela milésima vez, tomei coragem e arrisquei uma mordida.
            Legal. Tinham esquecido de me avisar que morango era bonito e vermelho mas não era doce. O açúcar que ficasse por nossa conta. O contrair das sobrancelhas denunciava: o gostinho azedo não estava agradando.
            Não pude deixar de notar o ar de decepção de minha pobre mãe, ao constatar que eu estava notavelmente frustrada. E foi aí que reparei: quer sentimento mais doce do que o que a fizera me trazer morangos naquela tarde? 
            Foi quando a pobrezinha já em tom de conformismo indagou: "-Não gostou não, né?" e eu respondi "- meio azedo, mas é gostoso!". Não lembro qual foi a segunda vez que comi morango. Só lembro que não desejei a frutinha por muitos e muitos anos. Hoje em dia, adoro comer com leite condensado ou chocolate. O que sei, é que o morango da infância era açucarado. Mas este era inventado. Morangos são azedos: fato. O doce é por nossa conta.


“Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada.” (Caio Fernando Abreu)
 

toma a chave.


Celebração da amizade

Nos subúrbios de Havana, chamam o amigo de minha terra ou meu
sangue. Em Caracas, o amigo é minha pada ou minha chave: pada, por causa de
padaria, a fonte do bom pão para as fomes da alma; e chave por causa de...
— Chave, por causa de chave — me conta Mario Benedetti.
E me conta que quando morava em Buenos Aires, nos tempos do horror,
ele usava cinco chaves alheias em seu chaveiro: cinco chaves, de cinco casas, de
cinco amigos: as chaves que o salvaram.

Eduardo Galeano in O livro dos abraços. 1991.

Infância amorangada - parte I

         O morango era de plástico. O vermelho acrílico brilhava na palma da mão e os olhos atentos de minha mãe aguardavam a minha reação de surpresa ao descobrir o primeiro batom. Ao abrir: surpresa! Algo vermelho, meio gosmento, que eu mal sabia o que era. - Passa na boquinha, filha. Minha mente de criança mal sabia distinguir um cosmético de uma geléia cheirosinha. E assim eu utilizava: passava, olhava os lábios carnudinhos e vermelhos no espelho e logo em seguida lambia até não sobrar mais nada.
        Agora, me vejo numa daquelas tardes de domingo. O calor escaldante não desanimava a turma de primos que brincava até o escurecer no quintal da rechonchuda avó. Entre pés de pitanga, acerola, tamarindo, carambola, manga, limão, cajú, laranja, seriguela e côco, nós brincávamos: Fazíamos as palhas pendentes do coqueiro de cipós, e como pequenos tarzanszinhos sobrevoávamos baixinho toda aquela imensidão de verde. Criava eu mesma venenos para os formigueiros. Aliás, o meu sonho era criar um potente veneno que matasse formiga e gente - pasmem, mas eu odiava uma prima -.
        As minhas substâncias letais, baseavam-se, geralmente em água da torneira - segundo minha mãe, um líquido extremamente tóxico, por conter 'bichinhos' muito nocivos para qualquer organismo -, areia - onde eu sabia que todos pisávamos com os pés carregados dos mais variados micróbrios e Sultão (o cachorro) fazia xixi indiscriminadamente -, folhas desconhecidas - minha avó sempre aconselhava-nos a não comê-las, já que algumas eram prejudiciais a saúde - e umas frutinhas vermelhas, que davam somente nas samambaias da varanda.
          Nunca consegui eliminar as formigas ou matar minha pobre prima (que não vou dizer o nome aqui, tadinha). O fato, é que hora ou outra, dávamos um pequeno intervalo da brincadeira e íamos os primos, suados e assanhados comprar pick-nicks (geladinho ou dim dim, se preferirem) na vizinha. Ainda lembro os sabores mais pedidos: Ricardo adorava o de Nescau, mas a maioria esmagadora preferia o de morango com leite. É o gosto da minha infância. Sentávamos no banquinho do jardim em frente a casa da minha avó, e competíamos para ver quem sabia fazer o furo mais eficiente no saquinho. Um, fazia um buraco enorme: - assim como mais rápido, gabava-se. Outro, fazia um pequeno furo: - assim dura mais e aproveito por mais tempo.
          Assim passávamos a tarde: Por vezes brincando com bolas de gude, noutras, usando o caule de alguma planta como canudo para fazer bolinhas de sabão (com os copinhos com água e detergente que a minha avó nos dava). Fazíamos ainda, do pé de seriguela a nossa nave espacial e cada um, em um galho diferente, possuía uma função. Fazíamos bolinhas com  misturas de terra e água e brincávamos de guerra também, porque não? (pena que naquele tempo ainda não existiam aquelas propagandas do OMO que estimulam os pais a deixarem que os filhos sujem toda a roupa e depois lavem com um sorriso.) Geralmente, essa brincadeira terminava em bronca e castigo.
          Comia biscoito de morango, usava brilho de morango, tomava pick nick de morango e achava morango a fruta mais especial do mundo. Mas um dia constatei: - Mãe, eu nunca ví um morango de verdade. Cheguei a pedir que a minha avó plantasse em seu quintal-que-dava-tudo, mas ela dizia: -ora menina, deixe de ser 'desasuntada'.
           Um dia, lá estava eu, no auge dos meus 7 anos, talvez. Era uma tarde tediosa, em que eu assistia um filme na globo (provavelmente "A lagoa azul", "Curtindo a vida adoidado" ou "Lessie"), e então, sinto duas mãos macias taparem os meus olhos e a voz de minha mãe mais espevitada que o normal disse: - adivinha o que eu trouxe pra você? Em seguida, me fez apalpar, de olhos fechados uma frutinha maior que seriguela e menor que uma maçã. Eu, num salto nem pestanejei: é "morango"!
          Ao abrir os olhos, fiquei alguns minutos admirando a tal fruta. Minha mãe fizera questão de escolher uma fruta de cor e formato idênticos aos que passavam na televisão ou estampavam as embalagens de biscoito. Era um morango perfeito, vermelhinho, com folhinha verde. Eu cheirei, olhei e subitamente fui acometida de um pequeno receio: e se o morango de verdade não for tão gostoso quanto o do brilho, do biscoito e do geladinho?
         Nesse momento, tive os pensamentos interrompidos por minha mãe, que ansiosa me apressou: - ande, prove logo! E aí o medo aumentou. Não fazia muito tempo que minha querida e amada mãezinha havia me induzido a tomar de uma só vez um copo cheio de "emulsão de scott" (um composto de vitaminas e óleo de fígado de bacalhau bem tradicional, que os pais dão pra criancinhas que consideram magras) dizendo ser "vitamina de banana, mas com gosto de framboesa".

(continua no próximo post)
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...